A mobilidade elétrica deixou de ser uma previsão para o futuro. Ela já chegou às garagens dos condomínios brasileiros e está trazendo uma nova questão para síndicos, conselheiros e administradoras: como oferecer pontos de recarga com segurança, organização e capacidade para atender a uma demanda que tende a crescer rapidamente?
A instalação de um carregador não deve ser tratada simplesmente como a colocação de uma tomada na vaga de garagem. Ela envolve infraestrutura elétrica, capacidade de carga da edificação, segurança contra incêndio, medição do consumo, rateio de despesas, responsabilidade técnica e planejamento para futuras ampliações.
Por isso, antes de instalar, é preciso planejar.
A evolução dos carros elétricos no Brasil
Os números mostram a velocidade dessa transformação.
Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o Brasil comercializou 223.912 veículos leves eletrificados em 2025, crescimento de 26% em relação a 2024. Para se ter uma ideia da evolução, em 2016 haviam sido comercializadas apenas 1.091 unidades.
Em 2026, o crescimento ganhou ainda mais força. De janeiro a julho foram vendidos 271.091 veículos eletrificados, número que já superava em 21% todas as vendas registradas durante o ano inteiro de 2025. Somente em julho, foram 56.074 unidades, fazendo os eletrificados atingirem aproximadamente 21% das vendas de veículos leves no Brasil naquele mês. A ABVE apontava, naquele momento, a possibilidade de o mercado superar 450 mil unidades no ano caso o ritmo médio fosse mantido.
É importante esclarecer que a categoria “eletrificados” utilizada nesses dados inclui veículos 100% elétricos (BEV), híbridos plug-in (PHEV) e outros tipos de híbridos. Nem todos precisam ser conectados à tomada. Entretanto, justamente os modelos que necessitam de recarga externa estão aumentando sua participação.
Isso significa que os condomínios precisam começar a pensar não somente no morador que possui um carro elétrico hoje, mas na quantidade de veículos que poderá existir na garagem daqui a cinco ou dez anos.
O carregador é apenas uma parte do projeto
Um dos principais erros é começar a discussão escolhendo o modelo ou a potência do carregador.
A primeira pergunta deveria ser outra:
A infraestrutura elétrica do condomínio está preparada para receber vários veículos sendo carregados simultaneamente?
O condomínio precisa conhecer sua capacidade elétrica disponível, a demanda atualmente utilizada, os quadros de distribuição, circuitos, proteções, aterramento e as possibilidades de expansão.
Um projeto pensado exclusivamente para atender ao primeiro veículo elétrico poderá se tornar inadequado quando aparecerem o quinto, o décimo ou o vigésimo.
Por isso, o ideal é trabalhar com um projeto de infraestrutura de recarga para todo o condomínio, ainda que sua implantação aconteça gradualmente.
Quais são os principais passos?
Antes de liberar instalações individuais, o condomínio deve buscar profissionais e empresas tecnicamente habilitados.
O processo deve contemplar, entre outros aspectos:
- Levantamento da infraestrutura elétrica existente, verificando capacidade e demanda disponível.
- Avaliação técnica da garagem, considerando localização das vagas, quadros elétricos, cabeamento e distâncias.
- Definição do modelo de recarga, estudando pontos individuais, compartilhados ou uma infraestrutura coletiva.
- Dimensionamento das proteções elétricas e sistemas de segurança adequados.
- Planejamento da medição do consumo, estabelecendo como cada usuário pagará pela energia utilizada.
- Sistema de gerenciamento de carga, quando necessário, para controlar simultaneamente os carregadores e evitar sobrecarga da infraestrutura.
- Projeto técnico e responsabilidade profissional, observando as normas técnicas e exigências aplicáveis.
- Análise das medidas de prevenção e proteção contra incêndio, especialmente diante das regras estabelecidas pelo Corpo de Bombeiros de cada estado.
- Aprovação condominial, quando necessária em razão das intervenções, utilização das áreas comuns, investimentos e regras coletivas.
- Regulamentação interna, estabelecendo critérios para instalações presentes e futuras.
Por que a decisão deve ser coletiva?
Mesmo quando o carregador atende exclusivamente a uma determinada unidade, sua instalação pode produzir reflexos sobre uma infraestrutura que pertence ao conjunto do condomínio.
Energia disponível, quadros elétricos, prumadas, caminhos de cabos, garagem, sistemas de proteção e capacidade futura são questões que podem afetar todos.
Permitir instalações individuais sem um planejamento global pode gerar uma situação problemática: os primeiros moradores instalam seus equipamentos e, posteriormente, descobre-se que a estrutura não comporta novas solicitações sem investimentos significativos.
A discussão coletiva também permite definir antecipadamente questões importantes: quem paga pela infraestrutura? Quem paga pelo consumo? Qual padrão de equipamento será aceito? Quem poderá executar as instalações? Como serão autorizados novos pontos? Haverá gerenciamento de carga?
A assembleia, portanto, não deve discutir apenas “permitir ou não permitir carro elétrico”. O objetivo deve ser estabelecer uma política condominial de eletromobilidade, observando a convenção, a legislação aplicável, os quóruns pertinentes e as características específicas de cada intervenção.
Segurança precisa estar no centro da discussão
No Rio Grande do Sul, esse assunto merece atenção especial.
Em informativo técnico publicado em 2025, o Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul destacou que os sistemas de alimentação de veículos elétricos instalados em áreas internas das edificações representam riscos que precisam ser avaliados tecnicamente e mencionou expressamente a ABNT NBR 17019 entre as referências relacionadas ao carregamento. O documento apresenta orientações e medidas adicionais para situações em que a instalação ocorre em áreas internas.
O tema continua evoluindo. Em 2026, o CBMRS colocou em consulta pública uma proposta de regulamentação específica que contempla sistemas de recarga em edificações, inclusive vagas de condomínios e estacionamentos privados, buscando aumentar a segurança das instalações, reduzir riscos de propagação de incêndio e facilitar a atuação das equipes de emergência.
Isso demonstra algo importante: o condomínio não deve trabalhar com soluções improvisadas ou simplesmente copiar o projeto adotado em outro prédio.
Cada empreendimento possui características próprias e precisa ser analisado tecnicamente.
E quem paga a energia utilizada?
Essa questão precisa estar definida desde o início.
O princípio mais adequado é permitir a individualização do consumo, evitando que moradores que não possuem veículos elétricos arquem com a energia consumida por aqueles que realizam a recarga.
Dependendo da solução escolhida, isso poderá ocorrer através de medidores individuais, sistemas inteligentes de gerenciamento, plataformas de controle ou outras formas tecnicamente adequadas.
Além do consumo de energia, devem ser estabelecidas regras sobre custos de instalação, manutenção e futuras ampliações.
Quanto mais transparente for o regulamento, menor será a possibilidade de conflitos.
Planejar agora pode custar menos do que corrigir depois
A infraestrutura pública de recarga também está crescendo. Em maio de 2026, o Brasil já contava com 25.429 pontos públicos e semipúblicos de recarga, crescimento de 20,7% em apenas três meses.
Mas a garagem residencial continuará sendo estratégica para a eletromobilidade. Para muitos usuários, é justamente durante o período em que o veículo permanece estacionado por várias horas que ocorrerá sua recarga habitual.
Por isso, os condomínios precisam incluir a eletromobilidade no planejamento de sua infraestrutura.
Não significa instalar dezenas de carregadores imediatamente. Significa estudar hoje como o condomínio poderá receber dezenas deles amanhã.
O síndico não precisa decidir sozinho
O papel do síndico é provocar a discussão, buscar informações técnicas, contratar profissionais habilitados, apresentar alternativas aos condôminos e conduzir o processo de decisão de maneira documentada e transparente.
Engenheiros eletricistas, especialistas em infraestrutura de recarga, profissionais responsáveis pelo PPCI, administradoras e assessoria jurídica podem participar desse processo conforme a complexidade do empreendimento.
Uma boa decisão começa com um diagnóstico técnico e termina com regras claras aprovadas pelo condomínio.
A garagem também está mudando
Durante décadas, os condomínios planejaram suas garagens pensando basicamente em circulação, iluminação, portões e vagas.
Agora surge uma nova infraestrutura: energia para mobilidade.
Diante da velocidade de crescimento dos veículos eletrificados no Brasil, a pergunta para muitos condomínios provavelmente deixará de ser “teremos carros elétricos em nossa garagem?” e passará a ser:
quantos veículos precisaremos atender e nossa infraestrutura estará preparada?
A nova mobilidade já começou.
Para o condomínio, o melhor caminho não é improvisar quando aparecer a primeira solicitação. É antecipar a demanda, estudar sua capacidade elétrica, estabelecer regras coletivas e desenvolver um projeto escalável, seguro e tecnicamente responsável.
Condomínio preparado para a eletromobilidade não é aquele que simplesmente instala carregadores. É aquele que planeja a infraestrutura para que todos possam utilizá-la com segurança, organização e justiça no futuro.
Dados atualizados até agosto de 2026,
Desenvoçvido por IA – Revisado por Humando




